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  • Equipe Photoverde

Pico Sem Nome: 22 dias de tensão, solidão e sofrimento

Atualizado: 22 de Jun de 2019

Primeira etapa do projeto 6 Hard Xpeditions, a árdua escalada de uma das maiores, mais imponentes e isoladas montanhas do Sudeste brasileiro


Foram necessários anos de planejamento e 22 dias de duro trabalho para que os atletas-documentaristas Fernanda Lupo e Márcio Bortolusso realizassem o antigo sonho de alcançar um dos mais impressionantes e isolados cumes da vasta Serra da Mantiqueira escalando por sua vertente mais extensa e vertiginosa.


A face sudoeste do “pico sem nome” – nome pela qual tal montanha era chamada por antigos moradores muito antes da chegada dos primeiros forasteiros e da febre de subir montanhas gerada em parte pelas modernas redes sociais - era um sonho considerado impossível para muitos escaladores principalmente pelo penoso e arriscado acesso até a base das suas encostas mais desafiadoras, que de tão isoladas desestimulavam qualquer tentativa de exploração.


Apesar do seu cume já ter sido alcançado anos antes por outros exploradores, através de uma exigente caminhada por sua face menos íngreme, esta imponente montanha se mantinha como uma das últimas do Brasil com mais de dois mil metros de altitude com longas paredes rochosas ainda sem rotas de Escalada.

Após uma fracassada tentativa de escalar esta inóspita montanha em 2009, quando foram obrigados a abandonar as encostas do pico após 11 dias de fortes chuvas e tempestade de raios, o casal desta vez contou com a valiosa ajuda dos escaladores Diego Moreira e Kelvyn Medeiros, do Clube de Escalada e Montanhismo de Angra dos Reis. “Ironia do destino” (diriam os crentes em sorte e azar), ainda na aproximação pela floresta Fernanda teve seu ombro deslocado, severa lesão que além das posteriores semanas de dor e descanso forçado, ainda lhe deixou de fora da nova equipe de escalada. Ou não...


Movidos pela paixão pela natureza e por anseios incompreensíveis para muitos, o determinado grupo vivenciou fortes emoções, suportando temperaturas negativas e dores severas, negociando constantemente com a fome e a fadiga física e mental, mantendo o bom humor apesar dos dias sem banho e das noites mal dormidas e sentindo os ânimos baixarem devido às incertezas e pelo exigente trabalho braçal.


Para compreender melhor o sofrimento enfrentado pelos escaladores, mesmo adotando técnicas minimalistas (fieis ao lema “é melhor faltar do que sobrar”) o time precisou de 7 longos dias de complexa navegação apenas para alcançar o sopé da montanha, transportar os cerca de 170 quilos de equipamentos e mantimentos e retornar - durante exaustivas caminhadas dignas do povo “sherpa” do Himalaia, literalmente escalando árvores para uma melhor visão na mata fechada, rastejando sobre gretas, trepando por instáveis raízes em paredes vertiginosas e equilibrando mochilas com dezenas de quilos em turnos que ultrapassaram 12 horas diárias.

Sob risco constante, durante o complexo e delicado trabalho vertical, os escaladores precisaram fixar as proteções de segurança tão distantes que possíveis quedas resultariam em voos de mais de 40 metros e, para castigar ainda mais a motivação do grupo, choveu. O mal tempo os obrigou a baixar os cerca de 300 metros escalados e as várias horas de trilha acidentada para aguardar uma nova chance, momento em que infelizmente Diego e Kelvyn precisaram retornar para casa devido a outros compromissos.


E quando tudo parecia perdido, em uma reviravolta quase “celestial” (diriam os crentes em anjo da guarda), eis que o ombro da Fernanda deu uma recuperada após 13 dias de molho no Acampamento Base e - após semanas de dedicação aparentemente desumana e infrutífera, imundos, um pouco desnutridos (chegaram a perder 5 kg cada) e com vários cortes e grandes hematomas pelo corpo – o casal de atletas-documentaristas decidiu investir suas últimas gramas de energia em uma insana jornada que se estendeu madrugada adentro até completar exatas 24 horas ininterruptas de árdua escalada. Esforço que valeu a pena. Afinal, para sempre Fernanda e Márcio relembrarão do espetacular entardecer que seus olhos registraram do cume do majestoso Pico Sem Nome.


O resto? Ah, o resto são histórias que um dia eles contarão aos seus futuros netos.


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